Lírica Aragão – Quando a arte transforma o mundo interior

Foto: Victor Taruma

É difícil quem está no meio da arte em Londrina e nunca ter visto uma exposição fotográfica, uma movimentação, seja por redes sociais ou em algum role, da Rainha das cores e unicórnios. Feliz de quem a conhece e a Revista Inspired quer mostrá-la ainda mais para o mundo. Ela é Rainha inspiradora sim.

Lírica Aragão, nasceu em 1990, em Astorga, e viveu a infância em Matinhos, uma praia do Paraná. Em 2017 ela faz 9 anos como fotógrafa, entre amador e profissional. A fotografia começou para ela de supetão, aos nove anos quando ganhou uma câmera dos pais, para fotografar uma viagem que fizeram juntos

Lírica – Só saiu foto torta, com a luz tudo estourada, mas eu fiz mesmo assim.

A partir daí ela começou a perceber melhor o mundo que vivia e o desejo de fotografar o que a rodeava surgiu. Ganhou uma câmera nova – Sony Cyber-Shot – na época era a câmera mais babado do momento.

Lírica – Eu comecei a fotografar muito diferente na verdade – de dentro pra fora -, as louças que minha mãe lavava, meu cachorro, meu pai, as conchinhas da praia, todas essas coisas, sabe?

O fascínio pela arte aumentava a vontade de fazer de Lírica e ela queria ainda mais, já era hora de comprar a primeira câmera profissional e para isso precisava juntar um dinheiro. Entrou na internet – na época era aquela discada – e deu um Google: “Como ganhar dinheiro?”. Resultado da busca: “Vender bombom”. Sem pensar duas vezes foi o que ela fez. Depois de 3 meses guardou 750 reais, mas ainda não era o bastante, vendeu mais um tanto até conseguir a grana suficiente.

Com a câmera profissional em mãos, próximo passo: fazer um curso de fotografia. Veio para Londrina, conheceu o Rei Santos, “meu padrinho” –  como ela refere-se a ele – e ficou por aqui durante 8 meses. Retornou para a casa na praia, já com um novo olhar, aprendizado e algumas fotos tiradas. Começou a fotografar em Matinhos.

Com quase 17 anos volou para Londrina, agora era definitivo, uma nova cidade com várias possibilidades e um forte desejo, aperfeiçoar a fotografia que já era tão viva dentro dela.

Lírica – Quando cheguei em Londrina aprendi muito com o Guima – um cara bem foda –  e continuei fotografando.

Durante 5 anos fotografou shows e depois entrou em uma empresa de moda. A paixão por estilos e ensaios foi um novo jeito de Lírica enxergar a fotografia.

Desde a adolescência ela se experimentou muito. Enquanto as meninas gostavam de usar roupa rosa, Lírica curtia usar calça camuflada, boné e camiseta do Linkin Park. O cabelo colorido – marca registrada – e as tatuagens também surgiram ai, entre uns 16, 17 anos. Muito nova ela já sabia o que gostava.

Lírica – Apesar do meu pai ser bem ‘machistão’, ele sempre me deu liberdade para experimentar as coisas, – um puxa e vai no rolê – e minha irmã também gosta de muitas coisas que não tem nada a ver com a sociedade, essas coisas bonitinhas. E eu continuo assim até hoje, um pouco mais tatuagem, claro!

A forte mudança na vida de Lírica, – é, podemos dizer na vida – foi a partir da fotografia. E não foi uma mudança de estilo, mas sim como perceber o mundo diferente. Anos atrás ela conheceu uma cliente, a Bruna, em uma palestra que fez para o curso de Relações Públicas da UEL, Universidade Estadual de Londrina. Ela, a Bruna, tinha acabo de se curar de um câncer e não conseguiu assistir a palestra inteira. Após o evento a Lírica recebeu um e-mail vindo da Bruna, que contou tudo sobre sua vida e o câncer. A vontade era fazer um ensaio, para sentir-se mulher de novo e viva através das fotos.

Lírica – “Fiz um ensaio super empoderador, acho que foi um dos dias mais felizes da vida da Bruna. Passou um mês e meio e ela morreu.”

Fazer um trabalho com a consciência que a vida de alguém é impactada de diferentes formas, se tornou a base para os trampos autorais de Lírica.

Lírica – Existia um trampo antes e depois da Bruna. Eu sempre falo isso pra todo mundo. Ela me mostrou o quanto a fotografia pode ser mais humana, o quanto a fotografia tem que passar o que a gente tem de melhor, que é a gente mesmo.

Ela recebeu a Revista Inspired no FÓS Collab, local onde trabalha junto com uma galera que está afim de fazer um trabalho diferente. Surgiu de uma necessidade de não trabalhar em casa, ter compromisso e ainda unir opiniões diversas.

Lírica – FÓS significa luz e é isso que queremos, levar informação e trazer pessoas pra somar com a gente e Collab é colaborar um com o outro. Levar a arte pra quem não tem acessibilidade. A arte da parede fala muito sobre isso. Fala sobre nós.

A mulher forte na aparência e nas palavras carrega um coração inspirador e cheio de vontade de fazer algo pelas pessoas que estão perto, na rodoviária pedindo dinheiro, no calçadão vendendo verdura ou que esteja afim de fazer algo bacana por Londrina. Lírica faz o que gosta e encanta quem se uni a ela.

Lírica – Eu gosto de fotografar pessoas reais, com estria, sem estria, cabelo crespo… O lance de não usar Photoshop nos meu projetos autorais é que gosto de fotografar o que a gente vê no cotidiano e não algo montado – isso eu posso deixar para trabalhos com os meus clientes, mas para Lírica como autoral, isso não cabe.

A fotografia corre pelo ser de Lírica Aragão e para ela todo registro é válido, mas a essencial é o que você faz com essa fotografia. Para essa mulher de quase 27 anos – ela pediu para esquecermos desse detalhe –  o que importa nessa arte de capturar imagens é a vivência que você tem, é seu olhar, é você respirar e sentir tudo aquilo ali, aquele momento. É sair por ai, querer mudar a vida das pessoa e não ser uma máquina de produzir conteúdo.

 Projetos Autorais | Explicados por Lírica Aragão para entenderem bem certinho alguns pontos do “fazer arte”

1 1 0 3 – P RO J E C T: Foi criado para retratar pessoas como elas realmente são, e que não existe PORNOGRAFIA nisso tudo, saca? O nude, é o que você faz com o celular e manda pra quem quiser. O nu é o que você faz pra se descobrir, se auto aceitar e várias outras coisas em seu benefício, uma luz, um ambiente, sua pele, seu cabelo que falam sobre você.

LONDRAMA: Era 2015, fui comprar uma passagem na rodoviária para o meu marido vir de São Paulo, estava muito calor. Sempre tem muitos mendigos ao redor da rodoviária e esse dia não foi diferente, tinha uma mulher negra com um pano enrolado na perna, blusa de frio, toca, sentada no canto e comendo um marmitex, mas só tinha farofa, bem triste. Eu subi comprei a passagem e fiquei pensando naquela mulher: A que ponto a gente chega, né cara? Estou aqui com 300 reais no bolso e ela lá. Comprei uma água.  “Aqui tem uma água pra senhora”, ela virou o rosto cheio de lágrimas e me agradeceu “Deus abençoe”. Quando desvirei o rosto, olhei para cima e a bandeira de Londrina estava batendo no mastro, tá ligada?  É linda a bandeira de Londrina, vermelha, batendo assim, com o céu azul, azul, azul. É isso cara! É um drama e é Londrina, são dramas londrinenses. No outro dia já sai com a câmera, comecei a fotografar. O projeto é feito com meu celular “bem roots”. O que me entristece é que as pessoas romantizam a palavra, não é pra romantizar. LONDRAMA não é pra coração, ninguém sabe o drama que é um senhor de 70 anos vender verdura no calçadão, às 15 horas da tarde no sol.

ZERO43: Está em processo ainda, vão ter várias pautas, mas quero começar com mulheres. ZERO grande e 43 pequeno, porque a maioria das pessoas são “zero”. Elas estão todos os dias na rua, mas acabam sendo nulas para quem passa por elas.

CANAL EU-LÍRICA : Há um bom tempo eu queria fazer o canal, mas não achava as pessoas certas. Encontrei o Victor Taruma, falei que queria ter o canal. Estava com medo por ser exposto. Fizemos num domingo um piloto, bem de leve, e eu vi que era aquilo mesmo. Acabou que a gente super se conectou. O nome já diz, Eu-Lírica, eu para o mundo. O lance não é ganhar dinheiro e ser famosa, é passar informações do que a gente tem por perto e não conhece, pessoas incríveis do nosso lado, que estão na nossa cara e a gente não percebe. Vão ter debates, troca de ideias e assuntos que muitas vezes as pessoas não colocam em pauta por medo do que a sociedade vai pensar. O canal é sobre a Lírica, mas não é só da Lírica. É um espaço para as pessoas se colocarem, para Londrina e o mundo conhecer outros tipos de arte, que não estão na mídia, – cozinha, tatuagem, moda, fotografia. Vai ter sempre um convidado no vídeo. Vamos trazer conteúdo, entende?

 

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